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Conheça os principais tipos de intertextualidade e como usá-los

Você sabe o que é intertextualidade? Basicamente, trata-se de um recurso que permite que o escritor desenvolva um conteúdo usando como referência elementos de um “texto base”. Assim, pode-se estabelecer, de maneira explícita ou implícita, uma espécie de “diálogo” entre as duas obras.

Existem vários tipos de intertextualidade presentes na literatura, em obras de arte, músicas, charges, mídias sociais etc. Por meio deles, é possível fazer menção de um acontecimento cultural, criticar ou enaltecer uma personalidade e até contribuir para o enriquecimento de um determinado tema.

Esse é um artifício bastante eficiente para melhorar sua qualidade de produção textual. No entanto, apesar de parecer algo simples, é preciso dominá-lo para garantir a criatividade. Então, para ajudar você com isso, neste artigo vamos falar sobre os principais tipos de intertextualidade. Confira.

Qual é a diferença entre intertextualidade explícita e implícita?

A intertextualidade pode ser caracterizada de duas formas: explícita (direta) e implícita (indireta). No primeiro caso, temos a citação do texto usado como referência no material produzido — ou seja, são fornecidos elementos que vão ajudar a identificar a presença desse “texto base”. Esse tipo de intertextualidade pode ser usado em resenhas, anúncios publicitários, citações etc.

Já a intertextualidade implícita não estabelece uma relação direta com o texto fonte, por isso, exige do leitor mais atenção e análise para entender a referência do conteúdo. Sendo assim, ela é bastante comum em paródias, poesias, músicas, paráfrases e textos publicitários.

Quais são os principais tipos de intertextualidade?

Independentemente de ela ser explícita ou implícita, existem diferentes tipos de intertextualidade. Confira, então, quais são os principais deles!

Paráfrase

Na paráfrase, a intertextualidade incide na temática. Grosso modo, aqui é utilizado um texto fonte em que a ideia central é reafirmada em um novo conteúdo, com estrutura e estilo próprio. Isto é, há uma troca de palavras, a reescrita, mas o sentido do texto é mantido.

Para facilitar, vamos a um exemplo. Abaixo temos a famosa canção do exílio de Gonçalves Dias: 

“Minha terra tem palmeiras 

Onde canta o sabiá, 

As aves que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá. “

Agora, uma paráfrase feita pelo poeta mineiro, do século XX, Carlos Drummond de Andrade. 

“Um sabiá

na palmeira, longe.

Estas aves cantam

outro canto. 

[…]

Só, na noite,

seria feliz: 

um sabiá, 

na palmeira, longe”.

Aqui Drummond altera o texto primário, fazendo mudanças no estilo, ele quebra a rigidez do primeiro poema e usa versos livres e sem rimas. No entanto, a temática se mantém a mesma — os pormenores das belezas naturais do Brasil — por isso, chamamos essa intertextualidade de paráfrase.

Paródia

Já na paródia ocorre a alteração da temática do texto base de maneira que a ideia expressada nele seja contrariada. Para isso, são utilizados tons de ironia e sátira, geralmente para evidenciar a crítica e a reflexão por meio de um momento de usufruição e gracejo. As paródias, atualmente, são muito utilizadas por jornais, revistas, humoristas ou, até mesmo, youtubers

Confira abaixo o exemplo que ocorre entre poemas. O primeiro de Carlos Drummond de Andrade e o segundo da poetisa mineira Adélia Prado: 

“Quando nasci, um anjo torto

Desses que vivem na sombra

Disse: ‘vai Carlos! Ser gauche na vida’

[…]”

Agora, acompanhe o texto de Adélia Prado:

“Quando nasci um anjo esbelto

Desses que tocam trombeta, anunciou:

Vai carregar bandeira.

Carga muito pesada pra mulher

Essa espécie ainda envergonhada.”

No primeiro poema, o eu-poético, criado por Drummond, é um ser perdido, deslocado e estranho. O anjo que traz o anúncio é torto, ou seja, alguém que pode ter passado por sofrimentos que refletem em sua postura física.

Já o poema de Adélia Prado traz outro viés. Primeiramente, há a diferença entre os anjos. O anjo de Adélia é esbelto e traz um aviso importante para as mulheres: levantem bandeiras, há ainda muita luta para vocês. 

Adélia usou o anjo de Drummond para indicar uma diferença de gêneros e chamar atenção de outras mulheres para a luta. O primeiro poema, que é intimista e trata de uma dor interior, passou pelas mãos de Adélia Prado e tornou-se temática de luta. Essa transposição de sentido, chamamos de paródia.

Referência ou alusão

Na referência ou alusão, a intertextualidade não ocorre de maneira direta, pois são usadas características secundárias do texto fonte. Esse tipo costuma ser empregado em conteúdos cujo objetivo é oferecer uma sugestão ou alusão a um acontecimento, personagem etc.

Um exemplo é o álbum Admirável Chip Novo da Cantora Pitty. Ali, a cantora busca referência na obra Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, publicada em 1932. O livro fala sobre um futuro distópico em que os seres humanos são controlados por um sistema que pré-determina todas as suas funções, antes mesmo do nascimento.

Epígrafe

A epígrafe é o uso de um texto fonte na introdução de um novo conteúdo. Essa técnica é muito usada em trabalhos acadêmicos, por exemplo, inserindo-se frases ou trechos de pensamentos que servem de apresentação do conteúdo que virá a seguir. Por exemplo, a frase de Guimarães Rosa:

“Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”

Pastiche

O pastiche ocorre quando se reproduz traços do estilo ou técnicas específicas presentes no texto base (geralmente relacionadas ao seu autor), sem a intenção de criticá-los ou satirizá-los. Esse tipo de intertextualidade é bastante comum em músicas e imagens.

Veja abaixo o pastiche de Manuel Bandeira. Aqui ele imita o lirismo da obra de Marília de Dirceu do autor português Tomás Antônio Gonzaga.

“Quis gravar ‘amor’

no tronco de um velho freixo

‘Marília’, escrevi”

Aqui, o poeta pernambucano repete e reafirma o amor que o eu-lírico de Marília de Dirceu sente por Marília. Não há uma crítica ou sátira, apenas uma repetição do sentimento que é tema central na obra de Gonzaga.

Outro pastiche muito conhecido na literatura brasileira é o livro Amor de Capitu de Fernando Sabino. Nessa obra, Sabino imita a história de Machado de Assis, Dom Casmurro, no entanto, dessa vez, a versão é da personagem Capitu.

Citação

A citação é um recurso muito usado no meio jornalístico, pois tem a finalidade de proporcionar credibilidade ao novo texto. Por isso, inclusive, costuma ser feita de forma direta, reproduzindo trechos do texto fonte. Nesses casos, a referência precisa ser destacada com aspas e constar a identificação do seu autor.

Veja o exemplo abaixo:

De acordo com Mário Sérgio Cortella:

“precisamos de memórias que sejam forças auxiliares, como um gerador de vida”. O filósofo ao trazer essa citação adverte-nos sobre a importância de aprender com o passado. A memória é uma ferramenta que, quando bem analisada, ensina”.

Veja que acima, o autor se apropriou da fala de Cortella e utilizou-a como uma forma de trazer credibilidade a sua tese. Essa é a principal função da citação.

Por fim, como dissemos, entender todos esses diferentes tipos de intertextualidade é uma forma eficiente de melhorar a qualidade dos seus textos. Afinal, o intertexto serve para ilustrar a importância de ter conhecimento sobre o que acontece no mundo, e de como isso pode interferir na compreensão do conteúdo.

Além disso, os benefícios de dominar essa técnica são bastante visíveis. No caso de um anúncio publicitário, por exemplo, além de difundir a cultura, a intertextualidade pode ser usada como uma forma diferente de persuasão, induzindo o leitor a adquirir seu produto e/ou serviço de maneira criativa e personalizada. Lembre-se disso!

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