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Além do Facebook: Dark Social

Além do Facebook: Dark Social

Recentemente o INMA (International News Media Association) produziu um vídeo na África do Sul, que em pouco tempo se tornou “víral”. E foi o suficiente para que aparecesse em grandes emissoras de rádio e tv. Eles conseguiram dobrar a audiência com a ajuda desse vídeo. Mas eis que temos um fato um tanto quanto intrigante: o vídeo em questão, tem como marca apenas 300,000 visualizações no Facebook. Esse não é, nem de perto, um número “viral”. Então como um vídeo tornou-se viral além do Facebook?

No vídeo, o tema é voltado para o público do país onde foi gravado (o que seria mais um motivo para que o vídeo não se tornasse viral). Nele, o INMA fala sobre o ex-presidente Jacob Zuma e sobre como os seus apoiadores seguem a seu favor em meio a dezenas de acusações de corrupção. Apesar de a primeira vista soar como um assunto polêmico, no decorrer do vídeo são feitas perguntas um tanto quanto óbvias (que não chamam atenção para o assunto de forma tendenciosa ou polêmica).

Esse vídeo nasceu de forma rápida e fácil. Gravado por um dispositivo móvel, sem grandes produções, sem palestrantes ou convidados de nome, apenas dando voz ao povo. Foram deixados de fora advogados, parlamentares, famosos, influenciadores e qualquer nome que pudesse trazer holofotes a produção. Foi abdicado o processo tradicional de mídias.

Com o formato despojado e sem dar muita atenção a impulsionamento de Facebook, a estratégia para a viralização desse vídeo foi: baixar o vídeo e compartilhar em inúmeros grupos de WhatsApp. Isso fez com que o vídeo pudesse viajar de forma leve e rápida.

Num país como a África do Sul, onde a banda larga custa caro, vídeos do WhatsApp são os favoritos. São fáceis e rápidos de baixar. E a partir do momento em que estão no seu celular, é simples de compartilhar com seus familiares, amigos e conhecidos. Nos países de economia semelhantes a esta, um vídeo baixado no celular é quase uma “mercadoria social” entre as pessoas.

Mas para quem trabalha mensurando os resultados vindos desse tipo de viralização, essa estratégia tem suas falhas. Pois em aplicativos como o WhatsApp não há como mensurar dados ou analisar números de compartilhamentos, views, comentários, conversações ou engajamento. E por isso são conhecidos como “Dark Social”. A verdade é que o INMA não tem ideia de como o vídeo realmente viralizou.

O vídeo foi postado no Facebook e de lá foi baixado e compartilhado para o WhatsApp, antes mesmo de que um segundo usuário do Facebook pudesse compartilhá-lo em sua rede. A Dark Social é quando o usuário utiliza de canais privados para compartilhar conteúdo. Canais privados como o WhatsApp, apps de mensagem em geral ou e-mail.

O vídeo foi disseminado na Dark Social e por vezes tornava ao Facebook. Mas dessa vez, após era baixado do WhatsApp e repostado no Facebook. De forma que pareça que o vídeo pertencia a esse tal usuário. Segundo dados, 84% dos compartilhamentos do vídeo vieram de contas privadas, ou seja Dark Social. Muito Uma estratégia muito além do Facebook.

A partir do acontecido, o INMA poderia ter gasto incontáveis horas e fortunas de dinheiro tentando provar que o vídeo viralizado era mesmo de sua propriedade e não dos usuários que repostaram o conteúdo. A internet tem dessas coisas e pode ser de difícil aceitação para aqueles que são extremamente controladores quando se fala em conteúdo próprio, mas o INMA decidiu privilegiar o objetivo principal do vídeo. E objetivo era, como plataforma de notícia, produzir um conteúdo que atinja o maior número de pessoas possível. E que foi, de fato, o resultado obtido.

O trabalho dos jornalistas é entender melhor as novas mídias, as novas plataformas e assim utilizá-las da melhor maneira possível. Podemos produzir bons vídeos (vídeos com conteúdo e virais) sem precisar de grandes câmeras e altas produções. Se você conseguir produzir um vídeo bom e ao mesmo tempo ter uma marca que ecoe por onde esse vídeo passar, você não vai precisar gritar por aí que o vídeo é de sua autoria. As pessoas já vão saber, só de olhar o vídeo. Pense além do Facebook.

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